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O que você vai ser quando crescer?

Igreja e sociedade precisam buscar a construção de políticas públicas de acesso ao emprego, renda e ensino de qualidade aos jovens

Quem nunca foi perguntado pelos pais, avós, tios ou mesmo pelas pessoas da comunidade sobre a ideia, ainda quando criança, da profissão a seguir? Geralmente a resposta era certeira: médico, professor, cuidar dos bichinhos, etc. No meu caso era: quero ser padre. Era um sonho de infância que era incentivado pela minha nonna Zulma. Ela tinha costurado meus “paramentos” com retalhos e minha mãe comprara alguns dos utensílios para o “altar”. E ia eu lá rezar a missa, e dava a “comunhão” – um pedaço de bolacha ou de pão – para as plantas da casa.

Ao chegar no início do seu período juvenil, pelos 15 ou 16 anos, o indivíduo fica em dúvida: suas vontades não são mais as mesmas daquela criança de ontem, mas o futuro bate à porta e pede uma decisão: você já cresceu; já sabe o que vai fazer da vida? No meu caso, mesmo com o acompanhamento vocacional, não sabia o que queria. Tinha um sonho: ser padre, mas tinha uma outra paixão: a comunicação. Terminei o Ensino Médio e fiz o vestibular para cursar Bacharelado em Filosofia ao passo que ingressei no seminário, na etapa do Propedêutico. Cada vez mais a vontade de me dedicar à arte de comunicar aumentava e o desejo de ser padre ia diminuindo. Então, 10 meses depois, saí da formação à vida presbiteral e fui cursar Jornalismo.

Deixei o seminário com meus pertences e, ao chegar em casa, minha família me cobrou: o que você vai fazer? No que vai trabalhar? Foi então que saí à procura de emprego, porque precisava pagar a faculdade. Fiquei por dois anos e meio num escritório de contabilidade, numa área totalmente deslocada daquela da comunicação, mas precisava, pois os boletos chegavam e precisavam ser quitados. Depois desse período, recebi minha primeira proposta para trabalhar com jornalismo, quando já estava com 45% da graduação concluída.

Posso dizer, certamente, que fui abençoado. Outros diriam que fui sortudo de conseguir ingressar no mercado de trabalho já com carteira assinada. E não poucas vezes reflito justamente isso: quantos jovens estão sem esperança por não conseguirem estágios, emprego ou mesmo por não terem acesso ao Ensino Superior? É nesse sentido que penso que a Campanha da Fraternidade 2019, que chamou à reflexão sobre as políticas públicas precisa frutificar: muitos falam da juventude, mas poucos pensam nela ou fazem algo por ela.

Na minha cidade, Caxias do Sul, com a crise econômica – que foi mais política do econômica – diminuíram significativamente os números de jovens cotizados para programas como Jovem Aprendiz, até porque algumas empresas da cidade não cumprem a Lei e não há fiscalização, ou mesmo para os cursos do Senai. Inclusive, o sistema S fechou uma escola profissionalizante e deixou mais de 400 jovens da Zona Norte, área muito fragilizada, desassistidos. Aqui retorna a pergunta do título: o que você vai ser quando crescer? “O que deixarem que eu seja”, me respondeu um adolescente.

Lançada em 25 de março deste ano, a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Cristo Vive, do Papa Francisco, sobre o sínodo dos bispos sobre a juventude, a fé e o discernimento vocacional, o Pontífice recorda que o desemprego é a primeira e mais grave forma de exclusão e marginalização do público juvenil. “Para além de os empobrecer, a falta de trabalho rescinde nos jovens a capacidade de sonhar e esperar, e priva-os da possibilidade de contribuir para o desenvolvimento da sociedade” (Christus Vivit, 270).

Mas aqui também nos cabe refletir sobre o papel da Igreja para com a juventude. Evangelizar não significa somente ensinar-lhes a doutrina. Antes disso, é permitir que sonhem e vislumbrem em Jesus um jovem destemido, corajoso e determinado. No entanto, precisamos oferecer meios para que a juventude volte a sonhar. Quão belas são as iniciativas dos cursos profissionalizantes sediados em paróquias, centros de pastoral e mesmo custeados pelos organismos ligados à Igreja Católica. Mais ainda: quão saudáveis são os espaços de formação da juventude para que exerçam sua cidadania com responsabilidade.

Como Igreja, podemos ajudar nossos jovens a galgar espaços na sociedade e isso está em nossas mãos: deixemos o jovem ser protagonista da nossa paróquia e da nossa comunidade. Que ele não seja impedido de viver sua missão por quem deveria ajudá-lo a sonhar. Precisamos de políticas públicas para a nossa juventude? É claro que sim: eles querem ter acesso a um emprego digno, ao ensino de qualidade, bem como a alimentação e moradia e não querem isso de graça. Muito pelo contrário, muito suor escorre de seu rosto para que possam concretizar seus planos. Muitas vezes é algo simples: ajudar a família em suas despesas, para que os pais possam descansar.

O papa Francisco é mais profundo: “o trabalho, para um jovem, não é simplesmente uma atividade para ganhar dinheiro. É expressão da dignidade humana, é caminho de maturação e inserção social, é um estímulo constante para crescer em responsabilidade e criatividade, é uma proteção contra a tendência para o individualismo e a comodidade, e serve também para dar glória a Deus com o desenvolvimento das próprias capacidades” (Christus Vivit, 271).

Lembra quando escrevi, logo no início, que precisei trabalhar num escritório contábil para pagar a faculdade e demais despesas? Francisco nos recorda que não podemos deixar de sonhar e buscar o que acreditamos ser o chamado de Deus para nós. “É verdade que não podes viver sem trabalhar e que, às vezes, tens de aceitar o que encontras, mas nunca renuncies aos teus sonhos, nunca enterres definitivamente uma vocação, nunca te dês por vencido”.

Jovem, não deixe de sonhar. Espelhe-se em Jesus, um jovem destemido e determinado. Bispos e padres, ajudem os jovens das vossas dioceses e paróquias a exercerem seu protagonismo. Cuidem dos jovens e lhes deem condições para que possam servir a Deus com alegria. Empresários, recordem-se que deixar de investir na juventude é postergar gastos com segurança, grades e outras formas de barrar a criminalidade. Lembrem-se do que disse São João Calábria: “O jovem traz escrito em sua fronte: sou de quem me conquistar.”

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